Um troca-troca à moda antiga

por | dez 6, 2020

Pode um órgão funcionar indefinidamente fora do corpo? Pois nós vimos, recentemente, uma peça de automóvel que há décadas vem funcionando… sem o automóvel. Ou seja: nada mais nem menos do que um medidor em escala da temperatura do motor; este há muito terá virado sucata, mas como o termômetro não sabe disso, continua a agitar o ponteirinho, dando a temperatura de um motor que já não existe. E demonstrando que já não se fazem termômetros como os de antigamente.

Essas e outras preciosidades automotivas puderam ser vistas na 1º Feira de Troca de peças e Carros antigos, promovida pelo Mustang

Clube do Brasil, no pátio de estacionamento de uma firma atacadista do belenzinho, na zona leste de São Paulo

O termômetro, da marca Allenano e característico dos anos 20, funciona por um processo físico, cujo princípio é basicamente o mesmo de outros medidores de temperatura da época, dotados de mostrador em escala. Os termômetros mais comum eram os de coluna, instalados na tampa do radiador; outros, mais sofisticados, dispunham de plaquinhas ou molinhas metálicas que, aquecidas, sofriam dilatação e, através de mecanismos, moviam um ponteirinho, também sobre a tampa do radiador, de modo a ser observado pelo motorista.

O modelo exposto na ”feira de pulgas”, embora funcionando pelo mesmo princípio físico de de dilatação dos metais, é muito mais requintado do ponto de vista técnico. O aparelho, que estava sendo oferecido por Fernando Serra – um especialista na área de car parts há mais de quinze – possui um bulbo de uns 4 centímetros, rosqueável no bloco do motor, e ligado ao mostrador analógico por um cabo de aço recoberto. O miolo metálico, uma vez em expansão pela ação do calor, movimenta o cabo e este, por sua vez, aciona o ponteirinho do mostrador, no quadro de instrumentos do veículo.

Deixado ao sol e sobre o piso quente (como aconteceu naquele dia), o aparelho funcionou normalmente, independente do fato de não estar acoplado a nenhum motor. Não é um barato? Isso ai.
Além desse termômetro, o mostruário exibia outras peças interessantes como um jogo de cabeçotes e coletor Edlbrock, em alumínio aletado, pata Ford V8, uma caixa com redutor de velocidade, para caminhão Ford A, uma autêntica buzina Klaxon modelo 18B e um distribuidor para o Lincoln V12, bem como calotas para modelos diversos.

Aliás, calotas foram o ponto alto da 1º Feira de trocas de Peças e Carros Antigos, uma promoção surgida das dificuldades cada vez maiores encontradas pelos colecionadores, no sentido de encontrar componentes avulsos para a montagem de veículos de restauração.

Como explicou um dos organizadores da promoção, Francisco Baptista, de 47 anos, do Mustang Clube também do Clube do Ford V8, é relativamente comum o fato de uma pessoa interromper a restauração de um veículo durante algum tempo, simplesmente por não conseguir encontrar determinada peça, específica do modelo.

Peça que, segundo Baptista, outros colecionadores possuem em duplicata, muitas vezes encostada em algum canto por falta de uso. Colecionadores que, por sua vez, também  necessitam de outros componentes, mas não sabem aonde encontrá-los

Foi para resolver problemas dessa natureza que surgiu a idéia de se realizarem feiras periódicas, através das quais colecionadores e restauradores de modo geral pudessem trocar as suas sobras, de modo a atender as necessidades de uns e de outros.

A idéia parece válida, se considerarmos que, para restaurar um veículo, o colecionador chega a comprar até três exemplares do mesmo modelo a fim de que, por meios de transplantes, possa recuperar apenas uma unidade. As peças aproveitáveis retiradas dos ”doadores”, mas não utilizadas, são estocadas para uma eventualidade qualquer. Como, porém, o modelo restaurado vai quase fatalmente para a aposentadoria dos cavaletes, os componentes não usados acabam esquecidos, de vez que, obviamente, a pessoa não irá, no futuro, recuperar outro exemplar daquele modelo, a menos, é claro, que se trate de um restaurador profissional, mas aí o papo é outro.

Um bom exemplo de que a feira é válida foi dada por um dos expositores, Walter Luís Autram Zappia, que depois de haver restaurado um Mustang 66’e outro 68, estava lá oferecendo as partes que sobraram, como logomarcas, lanternas, frades e tomadas de ar do modelo. Isso quando seu irmão Alberto estava vendendo, ou trocando um Chevrolet Impala 64, no estado de restauração.

Para a realização do evento, foram convidados os associados de outros clubes, como os do Fordinho,Chevrolet, Romi-Isetta, MG, Mini Austin/Morris, do fusquinha, Karmann-Ghia e naturalmente, do Veteran Car Club do Brasil-São Paulo, entre outros.

Esse tipo de promoção, já bastante comum nos Estados, onde tralhas de todos os tipos e gostos diversos são expostos para trocas e vendas, era uma necessidade que já se fazia sentir no Brasil, sendo de se esperar que a iniciativa surgida em São Paulo sirva de estímulo à realização de feiras semelhantes em outros pontos do país, onde o automobilismo antigo ganha a cada dia novos adeptos. 

Esta primeira mostra, apesar de haver contado com reduzida divulgação, conseguiu reunir cerca de 25 expositores e a visita de cerca de uns 120, além de uma presença razoável de pessoas interessadas em trocas, compras, ou simplesmente para dar uma geral pelo pedaço.

Por se tratar de uma promoção pioneira, não havia sequer bancas para pôr as peças em oferta; apenas colocaram-se papéis no chão e sobre eles os componentes trocáveis ou vendáveis.

Havia um pouco de tudo : grades de Mercedes-Benz, de Ford, modelos 32, 40, 42 e 56; placas antigas da Califórnia, Colorado, Dakota, Utath, Minessota e outras regiões dos Estados Unidos, bem como velhas placas usadas no Brasil; rádios originais; quadros de instrumentos do Fordinho A e de modelos mais modernos como o Mercury, Cougar, Thunderbird e Mustang; Oldsmobile, Ford, Plynouth e Mustang; estribos do Ford A e lentes do modelo 39 De Luxe da mesma marca; trambulador de câmbio automático do Mustang, além de peças novas, ainda na embalagem original, como cruzetas, balancins, carburadores, pastilhas e até uma raridade, uma chave de roda do Kissel, marca americana de carros de luxo que, surgindo nos primeiros anos do século, desapareceu no início da década de 30.

Os automobilistas do tipo intelectual também tiveram o que ver. Utilizando o cofre do seu carro como vitrina, Airton Fernandes ( que atua na área de retífica de motores americanos) estava oferecendo diversos livros sobre carros antigos, isto é, manuais de manutenção do Pontiac, Mercury, Buick, Ford, Volkswagem, Thunderbird, Galaxie e Studebacker, e obras abordando o aspécto histórico dos automóveis.

Já os que são chegados a um sozinho legal do tipo antigo tiveram um prato cheio, através de um rádio dos anos 20, daqueles dotados de alto-falante externo. Aparentemente, esse foi o único objeto estranho ao universo automobilístico a fazer parte da mostra. Ou quase; segundo consta , na ocasião, o rádio, pertencente a hélio Abonante (ligado a uma restauradora de veículos), teria sido trocado por um gramofone, também do tipo equipado com cúpula externa e acionado por corda.

Na verdade, de acordo com Francisco Baptista, os convites feitos para essa primeira promoção abrangiam, além de componentes e carros, também objetos de outras épocas, como máquinas de costura, vitrolas, relógios e antigas utilidades domésticas, de forma a atrair igualmente a presença feminina para o evento.

Quem não compareceu, não precisa se descabelar. A feira de trocas deverá ser periódica e a próxima deverá ser realizada na primeira quinzena de março de 1987.

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