O velho Landau não perde a pose

por | jan 12, 2021

Não é preciso ser muito observador nem fanático por automóveis para notar a quantidade respeitável de impecáveis Ford Landau que ainda desfilam imponentes pelas ruas da velha São Paulo – e também nas principais cidades do interior paulista. Estranho, não? Afinal, o bom Landau já deixou de ser fabricado há quatro anos e, teoricamente, deveria ter caído no conceito dos mais exigentes consumidores. Não caiu, talvez em função da fraca concorrência. E andar com um Landau hoje em dia dá o mesmo status – e o mesmo conforto, é claro. Uma preferência que movimenta um mercado nada racional, onde o preço de um veículo está diretamente relacionado ao seu estado geral. Quanto? Um bom Landau 83 não sairá por menos de um, ou 1,5 milhão de cruzados – isso se o felizardo encontrar alguém disposto a vender o seu.

Esse tipo de mercado particular coloca em parafuso a cabeça dos pesquisadores. Numa semana o preço do velho Landau pode oscilar de 350 a 400 mil cruzados – um modelo 1981, por exemplo – e na semana seguinte, esse preço saltar para algo próximo de um milhão. Como é possível? ”É que na verdade, o que conta é o estado geral do veículo, não o ano de fabricação ou outros detalhes”, explica o didático proprietário da Automotor, uma oficina paulista especializada na reforma de carros antigos, Luiz Francisco Batista. Na Automotor, Luiz e seu sócio Milton Martins de Oliveira estão acostumados a receber diariamente três a quatro carros para  correção de pequenos detalhes, revisão ou até mesmo uma reforma completa. ”O cliente de Landau é um cliente especial”, conta Milton Martins. ”Ele gosta do carro e nem se importa com o preço do serviço, quer o carro em perfeito estado. E é isso que nós fazemos.”

Luiz Batista e Milton Martins, aliás, são dois especialistas apaixonados pelos modelos Ford. Os dois trabalhavam juntos na revenda paulista Sonervig, quando em 1967 a Ford colocou no mercado o seu carro grande, o Galaxie. ”Eu me lembro bem”, conta Milton, ”os clientes ficaram completamente malucos pelo carro. Vinham para a primeira revisão e não havia nada o que fazer, o Galaxie estava perfeito. Era máximo”. Milton lembra com carinho até mesmo das cores de lançamento. ”Era época da chegada do homem à lua e os nomes eram todos relacionados à conquista do espaço, como o branco glacial, vermelho marte, azul infinito, preto sideral e o bege terra. O lançamento do Galaxie foi considerado um dos grandes acontecimentos dos anos 60.”
‘ Mas o Landau só ganhou as ruas em 1973, como o top-line Ford, um carro especial, para poucos, com todos os requintes de um veículo de luxo. A linha LTD, um modelo intermediário e o Galaxie ainda continuaram em produção até 1981. A partir daí, só mesmo o Landau.Sua característica principal sempre foi o pequeno vidro traseiro, proporcionando um ambiente  discreto, geralmente procurado por executivos e diretores de empresas. Na verdade, foi a partir de 1980 que o Landau se tornou ainda mais exclusivo, sendo oferecido somente nas verões com câmbio automático e em poucas cores, sempre discretas.” De 1980 até o modelo 1983 não houve qualquer modificação. Em geral as cores são o preto ou azul escuro, com uma minoria bege ou verde”, explica Milton.

Por esse motivo, os veículos mais valorizados são os produzidos entre 1980 e 1983, que só podem ser identificados pela plaqueta colocada na porta dianteira esquerda. Uma tabela feita a grosso modo pode situar os modelos, de acordo com a ano de fabricação, da seguinte maneira. Um 1980 pode custar entre 400
e 450 mil; o 82 de 450 a 650 mil cruzados e o 1983, o mais cobiçado, entre 950 mil e 1,5 milhão de cruzados. ”É um carro com grande mercado”, explica Milton, para quem a Ford deveria ter continuado a produção. ”Mesmo que o preço fosse dobrado”, diz, ”ainda haveria compradores fiéis”.

A Automotor, que sempre trabalhou com veículos Ford, desde o final da produção do Landau vem comprando peças de reposição da marca e hoje tem um estoque privilegiado. ”Hoje em dia nem mesmo as revendas Ford gostam de trabalhar com o carro por ser muito difícil e caro”, lembra Luís Batista, ” por isso a grande maioria dos carros acaba vindo para cá”. As peças mais difíceis  são as importadas, tanto de motor como do câmbio automático, isso eleva muito o preço de uma reforma na parte mecânica. ” O custo do motor hoje está em torno dos 200 mil cruzados”, conta Milton Martins. ”Uma reforma geral não sai por menos de 300 mil cruzados, dependendo do estado do veículo”. Um preço que não assusta à seleta clientela que quer um carro luxuoso e confiável.

Milton Martins e Luiz Batista nem gostam muito de falar de seus clientes. Afinal, boa parte deles são nomes conhecidos – e muitos. Alguns funcionários da empresa, no entanto, afirmam que um dos mais fanáticos por Landau de São Paulo, é o próprio Sebastião Camargo, dono da construtora Camargo Correia. O cantor Giliard também não sai de casa sem o seu Landau impecável – questão de gosto. Segundo se diz, muitos dos tradicionais compradores de Landau hoje têm outros carros como um Diplomata ou Santana, mas guardam a sete chave sua preciosidade. ”Só a Cia Suzano de papel e celulose tem oito carros”, conta Milton.

Mas haveria mesmo alguma vantagem em se gastar tanto dinheiro num carro que já está ficando velho? Sim, sem dúvida, responderia Milton Martins. ”O caro tem a vantagem de ter a TRU (Taxa Rodoviária Única), muito baixa, ser extremamente confortável, ser confiável e ainda dar o mesmo status que um carro importado como Mercedes ou outro qualquer. Sem contar que nem de longe ele é o preferido pelos ladrões.” Dá para convencer, não? Segundo Milton, alguns clientes, durante a reforma, aperfeiçoam pontos que foram deixados de lado pela própria Ford, com a instalação de vidros elétricos e apoio para a cabeça, ” muitos importantes em caso de colisão”.

Segundo Milton, na atual conjuntura um Landau se tornou economicamente viável, justamente em função do que oferece se comparado ao carro mais luxuoso nacional, o Chevrolet Diplomata. Conta-se uma história na oficina Automotor que dá bem a medida da preferência velho velho e confiável V 8: um fanático proprietário, dono de uma fazenda no interior de São Paulo, deixou sua preciosidade para uma reforma geral e, enquanto isso, comprou um Diplomata para fazer a mesma viagem semanal até sua fazenda. Foi uma vez só. De volta a São Paulo, com fortes dores nas costas, procurou Milton Martins e o intimou: ”me compre um outro Landau. Preço? Nem me importa, o que eu quero é meu carro”. E sem pestanejar acabou ficando com dois Landau, um melhor que o outro.

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